o Diabo anda à solta

Joanna Latka

Gravura e Desenho

CAOS | Casa d’Artes e Ofícios, Viseu
4 de janeiro de 2020 a 19 de fevereiro de 2020


O olhar sempre atento e irónico de Joanna Latka propõe-nos, nesta sua exposição, uma reflexão sobre algumas catástrofes extremas, perenes na nossa memória colectiva, que provocaram perdas de vida e de património, e que deveriam constituir um instrumento para uma consciência global do papel de cada um, indivíduos, instituições, Estado, neste complexo Mundo que é o nosso. Água e fogo nos seus mais intensos cromatismos, figuras numa simbiose entre a fábula e a sátira, o Eu e o Outro, Deus e o Diabo, são elementos que nos poderão permitir descobrir se chegámos a um ponto de ruptura com a Natureza connosco mesmo, enquanto espécie.
Ana Matos, 2018.

A arte de Joanna é sempre assim: aborda o nosso mundo globalizado e as nossas “estéreis indústrias culturais”, e aí se inspira para reinventar um vasto repertório de figuras e sub-temas, que explora com subtileza poética, propondo-nos um discurso artístico e aberto a interrogações marcadas um lugar de contemplação que está cada vez mais desaparecido na sociedade de consumo em que vivemos.
Professor Vítor Serrão, FLUL, 2018.

Doutoranda na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, professora de ensino superior (Universidade Europeia – IADE). Cofundadora de Atelier de gravura Contraprova (Lisboa). No plano artístico, dedica-se exclusivamente à gravura, ilustração e desenhos a tinta-da-china, incorporando variações baseadas nas técnicas de desenho e ilustração contemporâneas. A artista está representada em várias coleções públicas e privadas, conta com 31 exposições individuais e cerca de 55 coletivas, tanto em Portugal como no estrangeiro, como, por exemplo: Polónia, Alemanha. França, Hungria, Holanda, Itália, Brasília, Colômbia, Cuba, Canada. Artista também foi selecionada para diversos concursos de ilustração e bienais de arte, tendo no território nacional, tal como no estrangeiro.

PRESENÇA DO DIABO DEVASTADOR NO UNIVERSO EXPRESSIONISTA DE JOANNA LATKA

A nova exposição de Joanna Latka explora a temática do horrífico, da guerra e da catástrofe e os seus efeitos traumáticos nas sociedades contemporâneas. Através de três dezenas de gravuras, ilustrações e desenhos a tinta-da-china, a artista prossegue a sua senda criadora, fiel a um olhar de profunda humanidade, multiplicando variações técnicas, repertoriais e compositivas para criar impressões perduráveis através de um trabalho de excelência. Neste projecto, que explora como tema os efeitos globais da devastação, as obras constituem também um exercício de memória: propõem-se entrar no curso multissecular da História, escalpelizando justamente o seu profundo, inquietante e sempre retomado peso da desumanização. Preocupa-a, pois, entrever essa História que se tende a repetir, ora como tragédia ora como farsa, como afirmou Marx, num retorno a práticas ancestrais de barbárie de que os tempos recentes continuam a dar cabal testemunho.

O Diabo é denominador comum a todo este rosário de catástrofes cíclicas: feridas em chaga aberta, efeitos da guerra insana, morticínios, destruições, iconoclastia contra patrimónios, etnocídio multiplicado contra a cultura dos povos. As peças escolhidas trazem-nos a força dessa viagem de dilúvios e fogos de dimensão apocalíptica. Ao projecto, a artista chamou justamente A Hora do Diabo. Expõe-se em toda a sua nudez esse sentido de fragilidade dos homens e mulheres de ontem, de hoje e de amanhã, multiplicado à dimensão dos medos ancestrais, face à impressão aguda de que somos (sempre fomos!) tão vulneráveis à crueza das feras, e que a mais triste das solidões é a única companhia a que podemos aspirar nos velhos e novos caminhos de espinhos: e é ele, o Anjo Rebelde, o Senhor das Trevas, o Eterno Desterrado, quem comanda este plano de devastação ciclicamente conduzido à escala planetária.

Dessa consciência perante o horrífico falam estas peças, através de uma via criadora muito pessoal, a que a artista de há muito nos habitou (e que lembra, por exemplo, um Otto Dix, grande pintor do Expressionismo alemão e do comprometimento anti-fascista), sem esquecer as suas derivas por um certo imaginário medieval em não poucas «citações» patentes na sua obra (sem esquecer que em certas composições é possível reconhecer a derivação de fantástico de um William Blake…). Em Joanna, impõe-se o dramatismo ácido das «estrelas cadentes», dos «grandes vermelhos», das «composições de azul», dos labirintos e metamorfoses que se contemplam, das notas de onirismo e humor cáustico que irrompem, reforçando a dimensão dos medos mas consciencializando os nossos olhares, também, para a sua plausível superação.

Ao mesmo tempo, a artista não esconde o desejo de, através da sua arte, devolver uma capacidade de afecto aos discursos que as suas formas inventam, como se na imensidão demoníaco do caos pudessem nascer maçãs de esperança. Vem à memória, por isso, o Cântico Negro (1925), de José Régio, quando o poeta, com «olhos de ironias e cansaços», confessa: «Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém. Todos tiveram pai, todos tiveram mãe; Mas eu, que nunca principio nem acabo, Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo». Ou, recorrendo a Fernando Pessoa, o mesmo Anjo Rebelde se confessa Deus da Imaginação, perdido no mundo porque não crê… É a própria Joanna, quando nos explica o seu projecto, quem se confessa conduzida pela mão deste Diabo pessoano, e que por isso se indaga: «Que coisa tão pavorosa e tão bonita! O que é aquilo tudo ali em baixo?», ao que ele responde: «Aquilo, minha senhora, é o mundo!»

Não isenta de mordacidade e ironia – linhas-de-força constantes no seu trabalho – as obras de Joanna assumiram sempre uma dimensão de comprometimento, testemunho e denúncia, expressas na sua relação com os olhares públicos através da sua força aurática. A sua marca identitária explora o pendor do fantástico e do provocatório, através de um inconsciente criativo sem freios onde conformismo e esperança se digladiam, conduzindo a uma humaníssima demonstração libertária – assim é este universo expressionista e é por isso que esta exposição nos oferece uma viagem tão fascinante, em termos artísticos, e tão poderosa, em termos de consciencialização face ao horrífico! Estas gravuras e desenhos têm uma força discursiva que traz à lembrança o Expressionismo alemão dos anos de chumbo ao interpelar as injustiças sociais, os horrores da guerra e a arrogância dos possidentes com um humoroso sentido de mordacidade: este Diabo percebe-se, na sua irremediável solidão e no seu destino de fogo e cinzas. A arte de Joanna é sempre assim: aborda o nosso mundo globalizado e as nossas «estéreis indústrias culturais», e aí se inspira para reinventar um vasto repertório de figuras e sub-temas, que explora com subtileza poética, propondo-nos um discurso artístico aberto a interrogações marcadas um lugar de contemplação que está cada vez mais desaparecido na sociedade de consumo em que vivemos.

A artista nunca deixou de estar atenta, desde as primeiras exposições, às problemáticas sociais e às grandes causas: veja-se, por exemplo, o tema da condição da Mulher, e a recente exposição As Tentações do Senhor Valéry (Funchal, 2017-2018), onde usa, como sempre, a força da cor e os efeitos do claro-escuro ancorados numa literatura de referência (nesse caso, o pequeno mundo urbano descrito n’O Bairro ‘2002’ de Gonçalo M. Tavares), caricaturizando o Senhor Valery como digno descendente do Monsieur Teste, de Valery ou do senhor Këuner, de Brecht, juntando a curiosidade pelo paradoxo à dimensão patética dos seus tipos temáticos. Afinal, o Diabo de cuja Hora se fala nesta exposição é, também ele, uma figura patética nos seus paradoxos e na sua tristeza infinda…

Resta dizer que Joanna Latka (n. 1978, Polónia), polaca por nascimento (mas portuguesa por adopção: reside em Lisboa há quinze anos) é gravadora, pintora em várias modalidades (incluindo a pintura mural), exploradora de técnicas como a grattage, desenhadora a tinta-da-china, ilustradora de livros, formada em gravura e desenho pelo Instituto das Artes de Universidade de Pedagogia em Cracóvia (2003) e em ilustração pela CITEN da Fundação Calouste Gulbenkian (2004) e pelo ISEC (2006), docente do IADE, bolseira da FCT, investigadora do centro ARTIS-Instituto de História da Arte na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, tem vários estudos publicados e ultima neste momento um doutoramento sobre A Gravura Contemporânea Portuguesa. Enfatizo este último aspecto já que, se a obra artística é vasta e reconhecida (inclui já vinte e nove exposições individuais e cerca de cinquenta colectivas, em Portugal e no estrangeiro), não é de somenos o seu percurso no campo da História da Arte, sendo essa dimensão uma mais-valia enriquecedora dos novos caminhos que tem vindo a explorar, e de que A Hora do Diabo é exemplo eloquente.
Vítor Serrão, Historiador de Arte, Professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

+info: https://www.joannalatka.com/



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